Ainda precisamos conversar sobre violência nos games?

Por em terça-feira, 17 março 2015
violencia-nos-games

A liberdade oferecida pelos games sempre proporcionou sensações que seriam impensáveis no mundo real. Essa exploração dos nossos desejos acabou chegando a um tabu que incomoda bastante gente:  a satisfação em controlar a violência. Por que, em pleno 2015, com classificações indicativas e controles parentais, isso continua sendo um problema?

Sobre limites e violência sem sentido

O que divide bastante as opiniões quanto ao limite nos games são seus sentidos. Para ilustrar a questão, vamos à série Hotline Miami e o jogo Hatred.

Hotline Miami teve a sua série concluída agora, em seu segundo jogo, que de longe é um dos mais complexos e divertidos que já joguei. Seu enredo explora a violência tanto pela parte psicológica quanto pelas causas sociais. Tudo isso com muitas mortes e sangue.

Hatred é um jogo previsto para ser lançado ainda em 2015, que teve todo o seu marketing produzido pela sua própria polêmica. Você controla um psicopata que quer matar o maior número possível de pessoas inocentes que conseguir.

Violência nos games: Hotline Miami 2Hotline Miami 2: Wrong Number

Os dois jogos são sobre violência. Em ambos o objetivo é matar para ganhar pontos. Porém, Hotline Miami só foi barrado na Austrália, uma das mais rígidas censuras de games, enquanto Hatred chegou a ser retirado da Steam Greenlight, a mais importante plataforma de vendas. Franquias como GTA e Mortal Kombat, já conhecidas dentro dessas discussões, tiveram suas mais novas edições aceitas sem maiores problemas, apenas recebendo a classificação indicativa para maiores de idade.

À primeira vista, existe um abismo no “sentido” de cada jogo, mas, afinal, quem encontra um sentido para eles somos nós, os jogadores. Hatred pode ter um enredo superficial e doentio para você, enquanto para mim o mesmo enredo represente bem as consequências da “cultura da violência” americana. Isso dá uma nova máscara ao jogo, não?

Violência nos games: HatredHatred

Além disso, grande parte dos jogadores não se aprofundam nos games. Para quem não tem interesse ou paciência para contextos, tanto faz jogar Hotline Miami ou Hatred. O que importa vai ser a diversão proporcionada a eles pelo gameplay, e aí todos ficam na mesma balança. Como não existe e nem deve existir um padrão na forma de jogar, toda a “polêmica controversa” deveria ser ignorada, até por aqueles que são contra, evitando, assim, publicidade gratuita.

A censura, além de falha, nunca deveria ser tomada como uma opção. Como resposta ao banimento do Hotline Miami 2: Wrong Number na Austrália, os desenvolvedores apenas disseram: “Pirateiem”.

O próprio GTA exemplifica bem o debate sobre os tais sentidos. Você pode se envolver na mais densa, satírica e interessante narrativa que lhe é oferecida pelo jogo… ou pode simplesmente atropelar idosos, explodir animais e esfaquear prostitutas.


O que talvez divirta até o seu avô.

O “bode expiatório” perfeito

A polêmica dos games violentos começou a tomar forma mesmo no início da década de 90, com o lançamento de games como Doom, Wolfenstein 3D e Mortal Kombat. A partir desses jogos, surge uma eterna história de amor entre a mídia sensacionalista e os games.

Não há como dizer que isso está perto de acabar. Esses games sempre foram a explicação perfeita para justificar tragédias e estatísticas, desde o massacre de 1999, em Columbine, até o caso Pesseghini em 2013, em São Paulo. A forma rápida e funcional que tanto a mídia como alguns políticos encontraram para justificar tais casos foi colocar a culpa nos games, usando estudos nada conclusivos, sempre desmentidos posteriormente.

Enquanto ainda existirem jornais associando tragédias a Assassin’s Creed e afins, continuaremos a ter aquele desconforto na hora de explicar porque tanto gostamos dessa divertida e moralmente controversa área dos games.

Estudante de publicidade da PUC Rio, próximo na linha para ser King Size do Rio de Janeiro. Personalidade provinda de uma casualidade entre um Sintetizador e um Dualshock.

Comentários