Representatividade nos games: não somos os únicos jogadores

Por em sexta-feira, 9 outubro 2015
representatividade-nos-games

Se esse ano de 2015 teve algum avanço nos games até agora, eu diria que ele aconteceu na área da representatividade. Mas o que isso significa? Como isso impacta a nós, jogadores?

Representatividade é a forma como são retratadas as coisas. Nesse caso em questão, grupos de pessoas. É algo que, caso seja minimamente bem feito, não é muito evidente, mas quando não existe ou é feito de forma estúpida, pode incomodar. O que falaremos a seguir é justamente sobre a falta de uma representação verossímil, ou em outros casos, uma repesentação que acaba só por reafirmar preconceitos.

Os jogos funcionam como qualquer outro tipo de produção cultural, retratando medos, desejos, questionamentos e valores reais. É natural que também sejam representados, em nível geral, alguns de nossos vícios e tendências como sociedade.

Os pontos levantados a seguir não são para fazer uma acusação a indivíduos ou empresas, mas para o desenvolvimento de um senso crítico próprio. Não estamos habituados a enxergar esse tipo de detalhe, mas a partir do momento em que começamos a prestar atenção, se tornam inegáveis. Em tempos de Marcha das Vadias no mundo todo, protestos intensos em Baltimore e legalização do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo nos EUA, é plausível começarmos a prestar mais atenção nessas causas.

Além de Lara Croft e Boss

Não é preciso ser um jogador de longa data pra perceber que tem algo muito errado com a representação de mulheres. Entrando em basicamente qualquer RPG ou jogo de luta, principalmente os orientais, você já saca logo a obviedade das coisas. As armaduras de biquíni, as roupas coladas sem sentido, os planos de câmera sugestivos, as posições de contorcionismo pra realçar bunda e peito. Podemos citar infinitos casos como, Ragnarok, League of Legends, Street Fighter, Mortal Kombat, Duke Nukem, TERA, e até uma das minhas séries favoritas, Metal Gear Solid (principalmente no IV).

Representatividade nos games: TeraPersonagem do MMORPG coreano “TERA”. Qual proteção essa armadura pode oferecer?

Nunca vou me esquecer como a galera reagiu à “anabolização” do Chris em Resident Evil 5. Se a comunidade chiou com essa forçada de barra em apenas um jogo, imagina como as jogadoras se sentem?

Não estamos mais na década de 90, onde a grande maioria da comunidade era formada por rapazes adolescentes e a internet ainda não tinha um grande acervo de conteúdo adulto. Os jogos naquela época também não tinham metade do reconhecimento que têm hoje. Continuar com essa postura é, não somente uma degradação e falta de compromisso com as próprias obras, apelando para estratégias ultrapassadas, mas agredir jogadoras e mulheres como um todo.

Representatividade nos games: Life is StrangeMaxine Caulfield em “Life is Strange”.

A indústria demonstrou esse ano diversos receios quanto a apostar em protagonização feminina. A Dontnod, produtora francesa do jogo Life is Strange, passou por diversas distribuidoras antes de chegar na Square Enix, e a empresa foi a única que lhes deu liberdade e não pediu para que a personagem principal, Max Caulfield, se tornasse um garoto.

Indo por esse mesmo caminho, a Sony também esteve bastante preocupada com a recepção do público na E3 desse ano ao jogo Horizon Zero Dawn, também  pelo fato da protagonista ser uma mulher. Por outro lado, FIFA 16 vai trazer pela primeira vez seleções femininas e Forza 6 vai dar a opção de escolha do sexo do motorista. Muito mais crível em ser uma ação mercadológica do que de consciência social.

Além de CJ e Lee Everett

Pode fazer um esforço, mas acredito que dificilmente você vai encontrar personagens principais negros. Quando encontrar, na grande maioria das vezes, ele está relacionado de alguma forma à criminalidade: GTA, 50 Cent, True Crime 2. Se você for buscar por jogos que de alguma forma fogem dessa estereotipação, ficará ainda mais limitado. Mas não se preocupe, felizmente ainda existem alguns por aí, como Prototype 2 e The Walking Dead.

Acho que nesse ponto em específico não é preciso dizer muito mais.

Representatividade nos games: Prototype 2James Heller é o protagonista em “Prototype 2″.

Além de “Life Is Strange” e “The Last of Us”

A sexualidade é um tema que só começou a ganhar espaço nos games recentemente. Hoje temos os “Walking Simulators”, Graphic Adventures e Visual Novels, gêneros mais aptos a receberem personagens com desenvolvimento mais profundo e íntimo.

Representatividade nos games: Life is Strange

Life is Strange é um jogo que tem como plot principal a teoria do caos, pessoas desaparecidas e viagens temporais. Mas mesmo com esse enredo digno de um filme de ação, o jogo se destaca principalmente pela sua sensibilidade ao explorar os personagens e relação entre eles. Em jogos assim, a sexualidade acaba se tornando relevante na hora de uma contextualização mais real. Por outro lado, imaginar um relacionamento de Marcus Fenix em Gears of War é meio aleatório, principalmente pelo foco do jogo na história central: a luta contra os Locust.

Ainda assim, essas temáticas não precisam se limitar a gêneros específicos.

The Last of Us não se tornou um instaclassic por poucos motivos. Dificilmente você irá encontrar um jogo que consiga apresentar tão bem seus personagens, mesmo falando tão pouco. Quem mais me chamou mais a atenção foi a co-protagonista Ellie, principalmente na expansão Left Behind. É lindo ver a tentativa de “normalização” em um mundo tão conturbado. A força de se manter viva, os conflitos sentimentais e, até mesmo, a descoberta da sexualidade na fase da puberdade. Isso em um jogo com temática pós-apocalíptica, que muitos se limitam a classificar como “jogo de zumbi”.

Representatividade nos games: The Last of Us“The Last of Us: Left Behind” foi eleito o jogo mais bem escrito de 2014
pelo Sindicato dos Roteiristas (Writers Guild of America).

Alguns jogos já trazem a sexualidade/identidade de gênero de forma mais natural, como em Dragon Age: Inquisition, que permite que o jogador tenha um romance hétero, gay ou bissexual, além da presença do personagem transgênero Krem. Esse ano, a Nintendo anunciou que Fire Emblem Fates terá casamento entre personagens do mesmo sexo.

Não somos os únicos jogadores

Com todos esses fatos que se tornaram “notícias” esse ano, podemos ver claramente que as empresas estão mais preocupadas em dar maiores opções para os jogadores em geral se sentirem representados. Isso, caso não te atinja, também não irá te prejudicar. A representatividade nos games não necessariamente acompanhou o aumento da diversidade da comunidade, e a partir do momento que todos nós percebermos isso, a coisa começará a mudar automaticamente.

Nós, gamers, estamos aumentando cada vez mais, tanto pelo reconhecimento como algo mais sério, quanto pelo valor numérico. Alguns de nós já são repreendidos demais na realidade como um todo, para sofrermos o mesmo até onde nos sentimos mais confortáveis. Não existem motivos para ser contra a verdadeira inclusão de todos nós.

Se déssemos mais atenção a essas pequenas coisas que, para alguns, parece insignificante, talvez evitássemos tragédias como a que aconteceu com a programadora Rachel Bryk.

Esse é um tema bastante delicado, principalmente por eu, autor do texto, ser um rapaz cis, hétero e branco. Caso não tenha deixado claro, esse texto foi feito por análise própria, baseado em pesquisa e conversas, e de forma alguma tem a intenção de ser algum tipo de protagonismo.

Estudante de publicidade da PUC Rio, próximo na linha para ser King Size do Rio de Janeiro. Personalidade provinda de uma casualidade entre um Sintetizador e um Dualshock.

Comentários