Oscar 2014: Melhor Filme Estrangeiro

Por em quinta-feira, 27 fevereiro 2014
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Além das enormes produções hollywoodianas, muitas vezes borradas pelo excesso de enfeites, outros filmes se destacam na grande tela e merecidamente ganham espaço na premiação mais importante do cinema mundial. A estatueta de Melhor Filme Estrangeiro, somente nessa década, já foi entregue à Argentina (“O Segredo dos Seus Olhos”, 2010), Dinamarca (“Hævnen”, 2011), Irã (“A Separação”, 2012) e Áustria (“Amour”, 2013), selecionando seus candidatos exclusivamente por produções que não sejam na língua inglesa. Esse ano somos apresentados a cinco fortes concorrentes, cada um com sua particularidade, tornando difícil a previsão de um vencedor.

A CaçaA Caça (Dinamarca) é um filme intenso, que causa um sentimento de angústia do início ao fim. Thomas Vinterberg consegue transpor para a tela um assunto delicado e polêmico, de forma a causar uma sensação no espectador que não é muito comum quando se assiste a uma obra cinematográfica. Vinterberg divide esse magnífico roteiro com Tobias Lindholm, trazendo a história de um professor de jardim de infância, recém divorciado e em conflito pela guarda de seu filho. Lucas, interpretado brilhantemente por Mads Mikkelsen, é acusado de molestar uma menina, após a diretora da escola notar um comportamento estranho na criança. Mas, diferente de um thriller corriqueiro, aqui nós sabemos claramente que o homem é inocente. Ao invés de mergulharmos em uma trama para descobrir se o abuso aconteceu ou não, o roteiro vai por outro caminho e narra uma situação de completa mudança na vida do protagonista, por conta de uma acusação em elevado grau de repercussões na sociedade. Acompanhamos então a balança emocional do personagem que começa a ser extremamente oprimido por todos ao seu redor, incluindo seus amigos mais próximos.

A CaçaA trivialidade passa longe do roteiro de Vinterberg, que por sua vez dirige a história de forma explicitamente contundente. Conseguimos sentir raiva em diversas situações do longa, começando pela passividade do protagonista, a apreensão dos que ainda acreditam na inocência de Lucas – mas de alguma forma transparecem incerteza –, e, principalmente, pela reação da sociedade como um todo, e em como o ser humano pode fazer o mal ao próximo sem permitir o benefício da dúvida. A Caça conclui sua magnitude com a excelente fotografia de Charlotte Bruus Christensen. Altamente recomendado, mas segure-se na cadeira, pois não é um filme fácil de se digerir.

Alabama Monroe

Dirigido por Felix Van Groeningen, a Bélgica traz o denso e imersivo Alabama Monroe. Adaptação da peça The Broken Circle Breakdown Featuring the Cover-Ups of Alabama, a produção belga narra a história de um casal que se apaixona intensamente, mesmo com suas diferenças religiosas. Porém, esqueça aquela história melosa ou mesmo um enredo focado na religião, ou qualquer apelo ideológico. O tema está presente e é crucial, entretanto, é menos evidente do que se espera ao primeiro instante. Os personagens Elise e Didier são extremamente convincentes nas atuações de Johan Heldenbergh e Veerle Baetens: ele é ateu, ela é religiosa, mas tudo vai bem até que as coisas começam a desmoronar quando a filha do casal é diagnosticada com uma grave doença, botando assim a convicção de ambos em conflito.

Alabama MonroeÉ a partir disso que o longa toma forma. Com uma fascinante fotografia e utilizando como pano de fundo o bluegrass – gênero musical oriundo do country/folk com posterior inclusão de elementos do jazz –, podemos dizer que a música é completamente inerente à história. É através dela, inclusive, que a maior parte das mensagens não explícitas nos são entregues. Portanto, se você é uma pessoa que não aprecia produções que contenham excesso de música, nem chegue perto, afinal, ela é parte fundamental do roteiro. Contada de forma não-linear, a história de Alabama Monroe nos transmite diferentes sensações, da melancolia ao inconformismo. Mas é preciso ter sensibilidade para capturar a narrativa de forma correta. As diferentes mudanças temporais são extremamente bem montadas, exigindo certo fôlego de uma cena a outra. E nada, nada está ali por acaso. Um filme aconselhado para quem quer fugir do ordinário e ter uma experiência realista e visceral. Apenas não se esqueça de separar alguns lenços.

A Grande Beleza

Sem querer soar clichê, mas, A Grande Beleza é exatamente o que título propõe: um filme grandiosamente belo. Já nos primeiros minutos do longa, temos o prelúdio do que permeia todos os seus 142 minutos de duração: uma fotografia espetacular, que conversa com o espectador e fornece o tom perfeito para a narrativa que segue.

A Grande BelezaNa produção italiana, dirigida por Paolo Sorrentino – quem também assina o roteiro – somos apresentados a Jep Gambardella, um jornalista que vive da fama de seu único romance bem sucedido. O protagonista, interpretado com muita classe e sutileza por Toni Servillo (“Il divo”, “Gomorra”) encanta e conquista todos a seu redor, em uma Roma regada a luxo, loucuras e uma agitada vida noturna. Cercado por um excêntrico círculo social e literário, Jep começa a reconsiderar sua vida atual e toda sua trajetória anterior em seu aniversário de 65 anos, que coincide com uma chocante notícia referente a seu passado. Os primeiros trinta minutos do longa-metragem podem parecer sem propósito, mas servem para nos preparar, de forma poética, ao que encontraremos a seguir. Grandioso e sensível, A Grande Beleza passeia pela arte, monumentos e paisagens mais deslumbrantes de Roma, com todo o seu charme e glória.

Já vencedor de um Globo de Ouro, um BAFTA e diversas outras premiações na Europa, a produção italiana certamente está entre as favoritas a levar a estatueta no dia 2.

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Escrito e dirigido por Hany Abu-Assad, o concorrente da Palestina apresenta Omar, filme que leva o nome do protagonista, trazendo o ator Adam Bakri na pele de um jovem combatente palestino em busca de liberdade – em uma atuação que vale ressaltar seu alto preparo físico. Já nos primeiros minutos, um enorme e intimidador muro que separa não somente os israelenses, mas os próprios palestinos, aparece quase como um personagem, presente repetidas vezes durante a história. Não só parte da narrativa, o muro (que é constantemente escalado) simboliza subjetivamente o conflito, a limitação e a segregação impostos por um governo opressivo e autoritário.

img-oscar-2014-filme-estrangeiro-09Omar é um thriller, mas com elementos de romance e até mesmo a presença de um triângulo amoroso. Na história, três amigos de infância se encontram sem saída diante de um cenário de guerra sem fim. Tendo que abdicar dos desejos individuais como amor, família e um lar tranquilo, eles precisam se dedicar à libertação da Palestina em uma força revolucionária. O drama se torna mais radical quando o protagonista é preso e forçado a agir contra seus próprios companheiros. Há, porém, duas camadas no filme: a que envolve a relação de amizade, os desejos e sonhos e, obviamente, a opressão e humilhação sofridas por uma ocupação de um país já calejado de guerras e sem esperança. Apesar da ausência de clímax e de sua aparente linearidade, o roteiro consegue apresentar algumas surpresas, fazendo com que nem todas as decisões sejam previsíveis.

Enfim, A Imagem que Falta completa os concorrentes a Melhor Filme Estrangeiro desse ano. Direto do Camboja – próximo ao Vietnã, só para lembrar – o longa dirigido por Rithy Panh nos apresenta uma história real, sobre o regime ocorrido entre 1975 e 1979 no país, conhecido como Khmer Vermelho. No filme, as atrocidades ocorridas neste período são representadas por uma produção com figuras de massinha, arquivos de filmagens, e uma narração sobreposta. img-oscar-2014-filme-estrangeiro-10Rithy Panh e sua família, vale ressaltar, foram sobreviventes do regime, sendo o diretor, na época, ainda adolescente. Trata-se então de uma obra totalmente pessoal, sobre os horrores sofridos nos campos de trabalho.

Em seu documentário, Panh, por sua vez, decidiu não utilizar cenas dos atos de terror, respeitando assim as vítimas e buscando uma abordagem mais suave e discreta. Servindo como uma espécie de testemunho de sobrevivente, o filme pondera principalmente sobre a perda e nos faz refletir e questionar os atos terríveis ocorridos em nossa história.

Cinco filmes, de cinco países diferentes e com distintas abordagens. Embora a escolha da Academia seja de certo modo previsível, a única coisa realmente certa é apostar no seu favorito e torcer. No domingo saberemos quem leva a melhor, com uma boa sensação de que, qualquer que seja o vencedor, será um mérito a ser respeitado.

Sobre Rafael Gringo

Trabalha com a mente em 220 volts, e consegue pensar em cinco ou mais coisas simultaneamente – o tempo todo. Idealizador do Afronte. Amante incondicional de tequila, mas não dispensa a boa e velha roda de cerveja com os amigos. Admirador de todo tipo de arte. Jack of all trades, teimoso, hiperativo. Melhor amigo de Murphy.

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