A cultura do spoiler em uma sociedade ansiosa

Por em sexta-feira, 25 agosto 2017
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Quanto tempo você consegue se segurar para ver um episódio vazado?

Acho que você também ficou levemente inquieto quando descobriu que o sexto – e penúltimo episódio – da sétima temporada da série Game of Thrones “vazou”. Quer dizer, não foi intencionalmente, mas sim um deslize da HBO espanhola, que disponibilizou para seus assinantes o sexto episódio ao invés da reprise do quinto.

O episódio não chegou a ser exibido por completo, mas, como a internet tem seus becos escuros, assim como as ruas de qualquer cidade, alguns internautas deram um jeito de disponibilizar o episódio inteiro para download. Não tinha mais volta; não estava mais nas mãos do canal. E daí, vem o óbvio: a corrida dos spoilers.

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O termo “spoiler”, na linguagem midiática, implica qualquer tipo de texto, seja uma notícia ou mesmo uma foto, que contenha revelações do enredo de algum livro, série, filme ou até mesmo de algum game. Isto é, para os fanáticos por GOT, a internet tem se mostrado um lugar perigoso nos últimos dias. Metaforicamente, alguém pode sair de um beco escuro e soltar um “FULANO VAI MORRER”. O ruim disso? O spoiler certamente vai mudar a relação do espectador com a obra em questão, prejudicando a apreciação e “cortando o barato” de alguns momentos específicos.

Hoje em dia, é quase um crime moral um site de notícias divulgar qualquer nota que seja sobre o enredo de alguma obra sem o famoso “Spoiler Alert”. Mas essa discussão traz algo que vai além de simplesmente querer se surpreender com um filme. De onde os spoilers surgem? Do que se alimentam? Como se reproduzem? E a resposta está mais perto do que imaginamos: a nossa sociedade. É dela mesma que os spoilers surgem, se alimentam e se proliferam.

Se pararmos para pensar, ninguém usava o termo spoiler há 10 anos atrás. Mas saber acontecimentos de um filme antecipadamente sempre causou chateação nas pessoas. Se falássemos, por exemplo, que [SPOILER ALERT] Luke é filho de Darth Vader, isso certamente estragaria parte da experiência de quem ouviu isso antes de assistir ao “O Império Contra Ataca”. Mas hoje isso é mais intenso. As pessoas dão spoilers o tempo todo e não exatamente isso tem uma explicação cultural. Parece que sentem prazer nisso.

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Para fugir dos spoilers, que podem surgir de qualquer canto desse mundo tecnológico, o fã da série vai correr atrás para ficar em dia com os acontecimentos. Baixam o episódio vazado em qualidade baixa mesmo, mas precisam consumir aquele conteúdo o mais rápido possível, antes que seja tarde demais. Mas podemos desprender de tudo isso uma coisa: somos todos ansiosos.

A ansiedade é uma característica da sociedade atual. Com toda essa conexão e velocidade de fluxo de informações nos quais estamos inseridos, sentimos a necessidade de consumir a informação de forma rápida. Os estudantes têm cada vez mais pressa para se formarem. Você está tão acostumado a ter a resposta em questão de segundos (professor Google) que perde o controle quando precisa aguardar, por exemplo, a resposta de uma entrevista de emprego.

Quando você tem acesso a determinada informação antes dos outros, seja aos eventos de um episódio de uma série ou ao final de um livro, você tem um poder característico do novo século: a informação. Para demonstrar esse poder, nada melhor do que publicar em redes sociais, ou mesmo comentar com a família os acontecimentos. Assim, você mostra sua intelectualidade, sua proatividade e se revela ao mundo como uma pessoa antenada (pensem nos vários youtubers da vida que fazem um vídeo com título semelhante a “VI TAL EPISÓDIO E GOSTEI”). Você pode até ter muito dinheiro, mas definitivamente quem tem a informação terá mais visibilidade.

Psicólogos enxergam na ansiedade o mal do século XXI; um problema de saúde público, podemos assim dizer. Nervosismo, tensões musculares, palpitações e inquietude… Sempre mostrando que você precisa logo de um esclarecimento sobre algo. O spoiler pode ser considerado um reflexo dessa nossa sociedade. E quanto mais integrada e rápida ela se mostrar, mais ansiosa será.

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Essa ansiedade é o que alimenta a “indústria de spoilers”. Antes mesmo de um filme ou álbum de música sair, ele já foi consumido por algumas pessoas, que insistem em falar sobre, contar segredos. Em pleno 2017, ninguém mais respeita datas de lançamento. Consumir antes esse conteúdo torna a pessoa mais antenada e à frente das outras. É isso que justifica também as maratonas de Netflix assim que uma série é disponibilizada. Alguém pode ver antes e revelar coisas que você não pretendia saber até ver com os próprios olhos. Se esperar para ver, vai acabar por saber todos os eventos sem querer.

Pensem agora no quão doloroso isso é para a indústria cultural e suas vertentes (música, teatro, e especialmente séries e filmes). Existe todo um planejamento para surpreender o público, planejamento esse que vai por água abaixo quando um spoiler é solto por aí. Filmes como “Clube da Luta”, “Planeta dos Macacos” e até mesmo “Psicose” utilizam-se do recurso do plot twist: preparam o público para um momento icônico em que tudo, de repente, vira de ponta cabeça. Que chateação seria ver o filme após saber o final, não é mesmo?

Então, uma dica em caso de vazamento do próximo episódio de GOT. Antes de tudo, respire. Vá fazer um exercício na academia. Deixe o celular, computador ou tablet um pouco de lado. Tudo tem seu tempo, inclusive o episódio de GOT. Se afaste de spoilers e não deixe que ninguém atrapalhe a sua experiência. Saber primeiro não implica saber mais.

Estudante de jornalismo, com uma avassaladora paixão por música e por comunicação. Diabético, ainda sonha em ser um renomado baixista no Brasil. Se sente melhor escrevendo do que falando; gosta de ler cartas escritas à mão. Ama admirar paisagens, conversar com gente nova, ver o mundo e ser feliz.

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