Gypsy – a terapia em modo “stalker” de Naomi Watts

Por em segunda-feira, 10 julho 2017
critica-gypsy-serie

De uns tempos pra cá, é bem óbvio que as séries originais Netflix começaram a aparecer em maior quantidade, mas com isso, a qualidade, ou pelo menos a unanimidade de “boa qualidade” dessas produções, começou a ficar duvidosa. Havia um tempo que eu procurava uma série adulta de qualidade e, Gypsy, que estreou no dia 30 de junho, conseguiu suprir essa carência.

Jean Holloway (Naomi Watts) é uma terapeuta que utiliza recursos não convencionais e até antiéticos para tratar seus pacientes, além de carregar seus próprios problemas internos – que não são pequenos. Levando uma vida comum, bem tradicional, Jean é casada com Michael (Billy Crudup), um advogado dedicado ao trabalho e um bom pai de família, e é mãe da pequena Dolly (interpretada pela estreante fofíssima, Maren Heary).

critica-serie-gypsy-01

O arco principal gira ao redor de Sam (Karl Glusman, de “Love” e “Animais Noturnos”), que teve um término de relacionamento recente com a libertária Sidney (Sophie Cookson, de “Kingsman: Serviço Secreto”) e é bastante atormentado pela lembrança da ex. Jean, por sua vez, já mostra seus métodos inortodoxos ao visitar Sidney na cafeteira onde ela trabalha, a fim de descobrir mais sobre a moça e – aparentemente – ajudar seu paciente. Mas o que acontece, é que a terapeuta acaba ficando obcecada por Sidney.

A partir desse ponto, começamos a observar o padrão de Jean em entrar na vida de seus pacientes, não somente como uma participação passiva, mas ativamente agindo, como uma forma de controle e manipulação. Pouco a pouco conhecemos mais dos transtornos que afligem a personagem, e como ela canaliza seus sentimentos. Aprendemos também sobre o seu passado, que embora em boa parte obscuro, dá sugestões bem claras das suas motivações na vida e no trabalho.

Com uma linha narrativa bem reta, cada episódio apresenta uma evolução bem concisa da história, sem muita enrolação. Michael, por exemplo, é um personagem que vai crescendo e se mostra não ser apenas um coadjuvante, tendo suas próprias motivações e uma personalidade bem definida. Destaque para o episódio 7 (“Euforia”), onde Michael está em uma viagem para o Texas e o diretor consegue fazer um contraponto bem interessante do comportamento de Jean e seu marido.

img-critica-serie-gypsy-02

Mas a grande estrela, na maior parte do tempo, acaba sendo Sidney, com sua personalidade complexa, quase indefinível. A jovem responsável por partir o coração de Sam parece ter um lado diferente da história (não só com Sam, mas de outros acontecimentos), além de um jeito bem persistente de conseguir o que quer. A contradição sobre as reais intenções da moça e seu passado, acaba gerando certa dúvida no espectador – e na própria protagonista, o que a deixa ainda mais intrigada.

Jean mostra-se com uma personalidade manipuladora, buscando ter controle dos seus pacientes para um melhor resultado profissional. Por outro lado, Sidney se mostra com um arquétipo ligeiramente parecido, mas no âmbito pessoal. E é desse ponto que começa um jogo bem arriscado entre as duas.

A construção e evolução dos personagens talvez seja o ponto forte do roteiro, que mesmo com alguns clichês, consegue dar a volta por cima e ter sua parcela de originalidade. A protagonista, por exemplo, não é tão carismática, mas acredito que há uma intenção nisso. O elenco é bastante convincente, toda a parte técnica da produção é excelente e os 10 episódios dessa primeira temporada conseguem andar em um bom ritmo – ainda que possivelmente lento para alguns.

img-critica-serie-gypsy-03

Uma curiosidade interessante é que além do elenco ser na grande maioria feminino, a criadora da série também é uma mulher, Lisa Rubin; e dos cinco diretores, três são mulheres, incluindo Sam Taylor-Johnson (“Cinquenta Tons de Cinza”).

Gypsy é uma série que funciona nos pequenos detalhes, com inteligência e sutileza, levantando questões morais e da psique humana. Não há grandes emoções ou reviravoltas. São temas diversos, tratados de uma forma quase subliminar, nas entrelinhas. Uma história que aborda principalmente aspectos emocionais e os conflitos internos que carregamos, em diversos âmbitos. Portanto, torna-se uma experiência diferente para cada pessoa que assiste.

Trabalha com a mente em 220 volts, e consegue pensar em cinco ou mais coisas simultaneamente – o tempo todo. Idealizador do Afronte. Amante incondicional de tequila, mas não dispensa a boa e velha roda de cerveja com os amigos. Admirador de todo tipo de arte. Jack of all trades, teimoso, hiperativo. Melhor amigo de Murphy.

Comentários