Crítica: “A Forma da Água” mostra um Del Toro versátil, mas próximo da sua essência

Por em quarta-feira, 31 janeiro 2018
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É incrível acompanhar a carreira de Guillermo del Toro e perceber a versatilidade que ele vem adquirindo. Mais interessante ainda é observar como ele consegue remeter todos os gêneros ao terror, que foi onde ele começou. O mesmo diretor que há alguns anos fez um dos filmes de ação mais divertidos da década, “Círculo de Fogo”, agora entrega um belo romance repleto de nuances que recebeu 13 indicações ao Oscar. Sem nunca abandonar os monstros que os acompanham desde “A Espinha do Diabo”, seu primeiro sucesso, sejam eles paranormais, imaginários, gigantes ou de contos de fadas, a marca registrada do cineasta está sempre presente e mais importante, se adaptando junto com ele.

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Em A Forma da Água, Del Toro conta a história de amor entre Elisa (Sally Hawkins), uma faxineira de uma instalação secreta do governo americano, e uma criatura anfíbia (Doug Jones), que é mantida no local para ser estudada. A impressão é de que você já viu isso antes, não é? De fato, o tema do romance proibido entre humano e criatura fantástica não é novo, mas aqui o cineasta apresenta um novo olhar para esse tipo de história.

Segundo o próprio, esse é um conto de fadas para adultos e a primeira desconstrução visível é que a “princesa” não é fisicamente perfeita. Sua incapacidade de se comunicar faz com que ela se sinta isolada das pessoas “normais” à sua volta e acaba sendo um dos motivos para sua identificação com o monstro. Inclusive, um dos momentos mais lindos do filme se dá por essa razão, pois para Elisa a criatura é o único ser que não a vê como alguém incompleto.

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Já o personagem do chefe de segurança, Richard Strickland (Michael Shannon), é um paralelo mais direto com o clássico “A Bela e a Fera”. Assim como o caçador Gaston, ele acaba se mostrando o verdadeiro monstro da história, ao ser incapaz de sentir empatia com quem ele considera diferente e inferior a ele. E esse filme é justamente sobre amar o diferente, não à toa aborda temas como racismo e homossexualidade.

Abrindo parênteses para falar sobre a parte técnica do filme, é realmente impressionante o trabalho colocado nessa produção, o design de produção é maravilhoso e todos os cenários e figurinos são cheios de personalidade. Obviamente, o que mais chama a atenção é a maquiagem da criatura marinha. Tirando os olhos, tudo ali é efeito prático e isso colabora para a imersão do espectador na história.

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Outro aspecto que merece destaque é a edição de som. Em vários momentos do filme, os personagens estão com televisões ligadas em filmes clássicos e, em algumas cenas, a trilha clássica se intercala com a história principal. Há um momento, por exemplo, em que um personagem está pressionando outro e a música de tensão “vaza” do aparelho para compor a cena que é apresentada a nós, algo muito bem pensado e editado. Ainda na parte sonora, a película conta com uma trilha original lindíssima de Alexandre Desplat, ganhador de um Oscar por “O Grande Hotel Budapeste”, e as músicas representam tão bem os momentos do filme que só de ouvi-las você se sente novamente na sala do cinema.

“A Forma da Água” é um dos trabalhos mais maduros de Guillermo del Toro. E mesmo com esse formato excêntrico, sua intenção era simplesmente falar sobre o amor, esse sentimento que, assim como a água, nos envolve completamente quando mergulhamos nele.

Crítica: A Forma da Água pôster

A Forma da Água (“The Shape of Water”)

Roteiro: Guillermo del Toro, Vanessa Taylor
Direção: Guillermo del Toro
Elenco: Sally Hawkins, Octavia Spencer, Michael Shannon, Doug Jones.
Gênero: Aventura, Drama, Fantasia
Duração: 2h3min

Estreia no Brasil: 1 de fevereiro de 2018

Publicitário não praticante. Adora vasculhar a internet para ler sobre personagens de quadrinhos que nunca leu e filmes que nunca viu. Ama videogames e cinema e, logicamente, odeia filmes de games ou games de filmes. Escreve para o Afronte sobre games e filmes de cultura pop-geek. Seu sonho é ter uma loja de games e action figures ou se tornar um Mestre Pokemon, o que acontecer primeiro.

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