Beyond Two Souls é quase um filme interativo, com uma ótima trama e belas atuações

Por em domingo, 8 dezembro 2013
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Beyond Two Souls é o novo game do estúdio Quantic Dream, liderado pelo designer David Cage. A Quantic Dream é um estúdio conhecido por produzir games com enredos elaborados que prezam sempre pelo drama, como foi o caso de Heavy Rain. Beyond Two Souls não foge desse padrão, mas implementa novidades ao estilo.

Curiosamente, o jogo recebeu notas bastante conflitantes em diversos sites mundo afora, algumas muito boas, outras bem ruins, principalmente devido à grande expectativa criada sobre seu lançamento. Em razão disso, essa análise levantará os pontos fortes e fracos do game.

Marketing, trapalhadas e problemas no lançamento

O game teve sua estreia mundial no dia 8 de outubro e houve uma boa campanha de marketing no Brasil, informando que o jogo receberia dublagem e legendas em nosso idioma, principalmente por se tratar de um jogo com um produção muito elaborada, onde a compreensão dos diálogos é algo essencial para que ele seja bem aproveitado. O problema é que a Sony do Brasil cometeu o grande erro de gravar os primeiros lotes do jogo sem a dublagem ou até mesmo sem as legendas em português. A empresa demorou a resolver o problema e muitos jogadores acabaram ficando com o jogo completamente em inglês, o que atrapalhou a compreensão da trama por parte de muita gente, já que muitos jogadores compraram o game justamente por ter dublagem e legendas em português.

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Ellen Page, Willem Dafoe e um time de grandes atores

Beyond Two Souls coloca o jogador no papel de Jodie Holmes, personagem interpretada por Ellen Page, que possui um ligação com uma entidade sobrenatural chamada Aiden. Durante o jogo você assume o controle de Jodie em diversas fases durante 15 anos de sua vida. O jogo retrata sua infância difícil, tendo que aprender a lidar com Aiden, seus poderes e sua relação complicada com os pais, passando por uma adolescência problemática e trechos de sua fase adulta como uma fugitiva.

img-beyond-two-souls-analise-03O jogo apresenta uma estrutura de capítulos e o roteiro possui muitas idas e vindas, pois é bem comum você terminar uma fase com a Jodie adulta e depois encarar uma fase dela criança. Isso pode ter cansado alguns jogadores, mas achei uma boa saída para manter o clima de mistério e deixar o jogador preso ao game e à procura de respostas para os fatos ocorridos. Muitos críticos acharam isso ruim, pois deixava o ritmo do jogo lento. Na minha opinião, funcionou bem para o que ele se propôs. Vale lembrar que, apesar de Beyond Two Souls ter um ritmo mais rápido do que Heavy Rain e embora ele tenha mais ação que o outro título da Quantic Dream, não espere um jogo com tiroteios e combates a cada cinco minutos.

Um dos grandes destaques do game é sua dublagem, que possui atores como Ellen Page e Willem Dafoe. Ambos fazem um trabalho de primeira, dando alma a seus personagens em cada cena dramática. As boas atuações não ficam restritas aos dois, porque todos os personagens possuem dublagens excelentes, como Kardeem Hardison – dublador do Cole – que faz aquele gênero “tutor-paizão-gente boa”, além de Ryan, Stam e muitos mais. A dublagem nacional ficou em um bom nível quando falamos dos personagens principais Jodie, Dawkins, Cole e Ryan, enquanto a dublagem dos outros fica num nível apenas razoável em boa parte do tempo – embora tenha algumas atuações bem ruins, em personagens que aparecem menos.

Apesar de no geral a dublagem nacional ter ficado boa, eu recomendo fortemente jogar ao menos uma vez com o áudio em inglês, para o alto nível do trabalho feito no game que teve nada menos do que cerca de 2000 páginas de roteiro.

História e ambientação

img-beyond-two-souls-analise-06É difícil comentar a história de Beyond sem dar algum spoiler, mas em resumo você  controla Jodie Holmes, que possuindo uma ligação com a entidade chamada Aiden, a história gira em torno da convivência entre os dois, os problemas da relação e a importância de um para o outro, já que Aiden é o principal parceiro  de Jodie. Além disso, o jogo mistura vários elementos, como espíritos, conspirações militares, relacionamentos e dramas familiares. O ponto mais legal nessa mistura de temas é ver como as atitudes de alguém podem fazer a diferença na vida das pessoas.

O visual do game impressiona, não apenas pela semelhança dos personagens com suas contra partes reais, como a construção dos ambientes que são extremamente variados. Em determinado capítulo passamos por uma floresta numa noite chuvosa, enquanto em outro encaramos uma belíssima tempestade no deserto, os subúrbios de uma cidade e até mesmo territórios em guerra civil na África.

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A história em si é emocionante, que torna outro ponto positivo no jogo. Isso fica evidente nos capítulos “Homeless” (Desabrigada) e “The Mission”, que retratam bem algumas realidades, como ser um morador de rua, ou as mudanças sofridas por crianças que vivem em países em guerra. Não vou entrar em detalhes para não estragar surpresas, mas a questão é que o jogo consegue mostrar essas realidades de forma mais convincente e emocionante do que muitas matérias sensacionalistas ou filmes pretensiosos que vemos por aí.

A tão criticada gameplay

img-beyond-two-souls-analise-01Um ponto muito criticado por alguns sites foi a jogabilidade, pois assim como aconteceu em Heavy Rain, boa parte das interações com outros personagens e objetos são feitas através de quick time events. Porém, a mecânica se tornou mais dinâmica nesse game, pois os comandos são feitos seguindo os movimentos naturais da personagem. Por exemplo, se Jodie sofre um ataque vindo da direita e vai esquivar para a esquerda, essa é a direção que você deve acionar através do analógico do controle. O game também faz uso dos outros botões do Dualshock 3, assim como de suas funções de movimento, pois volta e meia você vai acabar tendo que chacoalhar o controle para se livrar de algum problema ou fazer Jodie executar alguma ação.

Aiden

Como dito anteriormente, Jodie e Aiden possuem uma relação desde o nascimento, e por isso ele será seu principal parceiro ou ferramenta durante o game. Como Aiden só pode ser visto por Jodie, ele pode vagar livremente e interagir com vários elementos do cenário, incluindo pessoas. Isso faz com que os objetivos possam ser alcançados de diversas formas. Em determinado momento no jogo você pode completar a missão possuindo o corpo de um personagem específico e fazer com que ele tenha acesso aos códigos que você precisa pegar, ou vagar com Aiden pelo local, destravar alguns dispositivos de segurança e depois pegar o código.

O fato de poder jogar como uma entidade-espírito-fantasma é divertido, pois dá ao jogador uma certa sensação de poder, uma vez que você pode simplesmente completar os objetivos das missões de forma pacífica, sem ser notado e poupando pessoas, ou pode realmente “tocar o terror” e escolher assustar, maltratar ou mesmo matar pessoas. Fica muito ao critério do jogador se Aiden vai ficar mais para Gasparzinho ou um Poltergeist.

Entidades no seu celular

O game pode ser jogado sozinho ou mesmo em dupla, com um jogador controlando Jodie enquanto outro assume o papel de Aiden. Para isso o game oferece a opção “Dual Mode”, na qual o segundo jogador pode controlar qualquer um dos personagens usando um segundo Dualshock 3 ou através de um smartphone ou tablet. Para isso basta baixar o aplicativo “Beyond Touch” na Apple Store (para dispositivos da Apple) ou na PlayStore, para aqueles que possuem um Android. Cheguei a testar a versão do aplicativo para Android e o mesmo funcionou bem, ainda que a jogabilidade fique de forma mais simplificada se comparada ao controle tradicional.

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Problemas

Eu particularmente não achei nenhum grande defeito no game. A questão é que ele é praticamente um filme interativo, pois não há um “game over”. Não existe muito o elemento de tensão e o medo de perder, pois o game irá sempre seguir adiante, embora isso possa acontecer de formas distintas. É necessário entender a proposta do game e jogá-lo com isso em mente. Talvez por essa razão muita gente tenha criticado injustamente, pois apesar de contar com ótimas cenas de ação, elas não acontecem o tempo todo.

img-beyond-two-souls-analise-08Minha crítica fica apenas por conta da Quantic Dream não ter desenvolvido melhor o roteiro, a fim de explicar de forma mais detalhada a razão de Jodie e Aiden estarem ligados, e também a questão do mundo das entidades presentes no game, que também poderia ter sido esclarecida de uma forma melhor.

Beyond Two Souls é um ótimo game, mas realmente divide opiniões por oferecer uma proposta diferente da maioria dos jogos e, de certa forma, é preciso estar preparado para jogá-lo. Por isso eu digo: se você aprecia um bom roteiro, com ação, drama, um pouco de mistério e tem um pouco de paciência para esperar a trama engrenar, pode pegar o game, que será diversão garantida. Mas se você procura apenas por ação o tempo todo, é melhor procurar outro.

Nota: 9,0

Prós:

Muito bonito graficamente
Ótimas atuações de voz
Ellen Page
Direção de arte
Suas escolhas podem gerar diversos resultados diferentes durante o game
Vários finais

Contras:

Não tem Game Over
O jogo é fácil
O roteiro poderia detalhar melhor alguns pontos da trama

 
 
 
 

Sobre André Leonardo

Jornalista, produtor, gamer desde os tempos do Atari, já foi skatista, porém hoje prefere esportes mais leves. Está sempre ligado no que acontece no mundo geek / nerd.

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